Autoconhecimento ou Piloto Automático – O que escolhes?

Quantos de nós passamos dias, meses, anos, décadas a fazer determinadas coisas “porque sim”? A “picar o ponto” ou aceitar o que é imposto pelos outros, sejam namorado(a)s, maridos/mulheres, pais, família, amigos, chefia, organização, ou sociedade?

Quantos de nós não verbalizamos as nossas reais intenções, motivações, interesses? A não conseguirmos perceber verdadeiramente o objetivo com que fazemos uma tarefa ou a explorar o propósito de uma vida?

Considero que existem algumas causas mais comuns para a maioria de nós responder de forma afirmativa a esta pergunta.

A primeira deriva da experiência do Steven Reiss, psicólogo americano e investigador que trabalhou durante décadas para responder à simples questão: O que é que nos move? Neste estudo aprofundado ele identificou 16 factores motivacionais que são partilhados por todos nós, em que um em particular é a Aceitação Social. Este factor representa o desejo de pertença, em que quanto mais vincado estiver na pessoa, mais motivada esta estará para evitar a crítica e a rejeição, em que a avaliação do outro intensifica a sua ansiedade e marca a auto-estima de forma negativa pela desvalorização sentida. Quanto menos vincado estiver esse factor, mais imune é à crítica e menos se interessa por aquilo que se diz ou faz à sua volta que a possa contrariar. Pensando em nós e nas pessoas mais próximas, diria que não é preciso fazer o teste motivacional do Steven Reiss para ter um entendimento da importância de sermos socialmente aceites e percebermos quão “presos” podemos estar ao que se passa à nossa volta, seguindo o que é socialmente pretendido sem colocar questões como: Isto faz realmente sentido para mim? O que faço representa o que sou? Onde estou é onde quero estar?

Para quem fazer parte da “tribo” é importante, talvez não queira colocar este tipo de questões a si próprio por recear a resposta. Mesmo que mantenha a sua opinião após a leitura deste artigo. ?

A falta de perceção/consciência do “peso” do passado é algo que as sessões de desenvolvimento individuais que tenho feito desde Março de 2020 têm enfatizado. No passado estão as respostas ao que nos afecta, prende, bloqueia no momento presente. Tudo começa nos primeiros 7 anos de vida, período de extrema importância na nossa formação, sendo a fase em que a ligação com os nossos pais e a relação entre eles originam padrões comportamentais e crenças que marcam muitas vezes inconscientemente o nosso desenvolvimento nos vários papéis sociais que temos (pessoais, sociais e profissionais). Desmontar esse período é complicado e exigente até porque nos esquecemos de forma mais ou menos consciente e temos de recorrer a ajuda externa a nós (os nossos pais, por exemplo) para recordar momentos mais marcantes ou ter uma maior percepção de determinadas situações. Neste período, a maior ou menor presença dos nossos pais, a relação com um/a educador/a ou com nossos colegas, criam um impacto que nos “fecha ou abre para o Mundo” tendo em conta o respeito (ou falta dele) pela singularidade do nosso Ser.

A nossa “criança interior” é profundamente marcada por estes primeiros anos de vida, havendo um impacto mais ou menos saudável nos anos seguintes. Após os 7 anos até final da nossa adolescência, o nosso espectro de atuação intensifica-se, as nossas experiências e pápeis sociais são vividos de forma mais consciente, num período em que estamos a criar a nossa posição na família, escola, grupos e sociedade com maior ou menor suporte para pensar criticamente no que faz sentido para nós. Quando chegamos à fase adulta (que pode ser diferente de pessoa para pessoa) estamos profundamente marcados por uma experiência de vida que é intensificada pela inconsciência dos seus primeiros anos e da intensidade posta na adolescência e respectiva afirmação do EU nas várias relações e papéis sociais que marcam inevitavelmente a nossa essência.

Outro motivo está relacionado com o preconceito que muitas vezes ainda temos por considerarmos que ter acompanhamento profissional para temas de saúde mental e emocional é um sinal de fraqueza. A minha experiência tem-me mostrado que no caso dos homens é mais evidente até porque o legado de masculinidade não nos dá grande espaço para numa simples conversa de amigos falarmos sobre os nossos problemas (sejam eles de carácter emocional, sexual, pessoal, familiar) de forma aberta. E mesmo existindo abertura para isso, estamos formatados para assumir automaticamente a premissa de que os “homens não choram”, originando um julgamento pouco abonatório para quem faz a partilha. No caso das mulheres a abertura e predisposição é maior, mas há um longo caminho pela frente para compreendermos que somos todos seres vulneráveis em determinados momentos da nossa vida. A forma solitária e individualista de enfrentar os problemas pode e deve ser alterada, uma vez que assistimos cada vez mais ao aumento de burnouts, depressões e suicídios que demonstram que não estamos a lidar da melhor forma com os desafios individuais.

Por último, mas não menos importante, vivemos de acordo com o ritmo acelerado do Mundo, em que a lógica Fast Food da Vida não deixa(va) as pessoas respirarem, em que todos necessitávamos de resultados e respostas rápidas em todas as vertentes e papéis da nossa vida não havendo grande espaço para perguntas e pensamentos sobre o que nos faz sentido e o que realmente interessa à nossa essência. Neste contexto, o nosso piloto automático é accionado e nele agimos via padrões comportamentais desejados socialmente e normalizados no tempo. Até que a Pandemia nos fez realmente parar e trouxe à tona tudo aquilo que o piloto automático não nos “permitia”: perceber, compreender, sentir e ser! daí considerar que estamos no início de uma revolução dura e com impacto em termos sociais, ambientais, económicos e laborais que nos levará a médio prazo para outro nível de consciência colectiva.

Um dos momentos mais negros da nossa história permitiu às pessoas terem tempo para olharem para dentro e começar uma transformação interna que terá o devido impacto para fora – a Grande Demissão é um exemplo disso ao nível do mercado de trabalho. Sem dúvida que não queremos mais pandemias e sermos forçados a parar, no entanto o fundamental é percebermos a importância de nos obrigarmos a ter tempo para nós próprios, reflectindo e cuidando do EU. Só depois (e se desejarmos) podemos ajudar os outros, aceitando as diferenças e entendendo que no fundo somos todos diferentes nas experiências que vivemos e no perfil de cada um, mas iguais na forma humana.

Hoje acredito vivamente que todos nós precisamos de um acompanhamento holístico que nos entenda como Pessoas nas suas várias dimensões – física, mental, emocional e espiritual.

Essa pessoa pode ser um facilitador, um guia ou terapeuta que percorre e acede connosco aos momentos mais impactantes do nosso passado e inclusive o passado da nossa família (sistema/constelação familiar) que marcaram e ficaram por resolver e ter assim um entendimento com quem temos de trabalhar a relação e como (ou caso a pessoa já não esteja connosco, de termos a possibilidade de ter um closer da situação que nos afectou). No fundo identificar o que marca e bloqueia o nosso presente em todas as facetas da nossa vida. Este trabalho, leva-nos a uma maior tomada de consciência desses episódios e depois garante (se o facilitar/guia/terapeuta tiver a capacidade para fornecer) as ferramentas para que a pessoa consiga lidar, resolver, fechar e seguir em frente com os seus desafios mais prementes.

Tudo leva o seu tempo, mas é possível se realmente nos dedicarmos e confiarmos na pessoa e no processo.

O que irás fazer?

Pablo

Pablo

cargo do autor

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